Sobre homens, lagartixas e febre.

De volta, mas ainda com malas por desfazer e gripe para curar. Ainda vamos, aos poucos, distribuindo por aqui nossas impressões de viagem. Logo abaixo eu li o “Momento autoral” do Sergio e concordo com ele: a equipe da Lu Fernandes teve desempenho impecável, os vermelhinhos foram educadíssimos, ainda que tivessem a difícil tarefa de cumprir leis e pedir desculpas por elas. Nada a reclamar da programação brilhante, tudo a agradecer ao Cassiano Elek e Liz Calder, pessoas visivelmente comprometidas com o bem estar de todos e com a elegância da Festa.

Em Paraty algumas coisas foram mais difíceis do que imaginei a princípio. Assumo parcela gorda de culpa: achar que podia estar em todas as mesas e em todas as programações paralelas e ter intervalos para comer, fazer xixi, tomar banho e beber água. Utopia. Eu, na verdade, nem achei que podia, apenas não pensei a respeito. Fui para fazer tudo. E quis fazer tudo. Também não imaginei a temperatura altíssima durante o dia e o despencar vertiginoso durante a noite. No segundo dia eu tombava por nocaute. E havia as parcelas de culpa que não eram minhas, mas suponho não saber a quem endereçá-las.

Uma coisa eu tenho que dizer sobre o trabalho dos fotógrafos durante a V FLIP: se qualquer um de nós, humanos comuns, encontrar por aí em jornais e sites e revistas… alguma boa foto de algo que tenha acontecido durante as mesas na Tenda dos Autores, devemos parabenizar o autor da foto pelo talento, ousadia, paciência, criatividade e flexibilidade. Ah! Principalmente isto: flexibilidade. Exceção aqui para uns dois ou três profissionais oficiais do evento que tinham direito e dever e uma certa liberdade de espaço. Aos demais fotógrafos, pela primeira vez (que eu saiba) foram reservados espaços nas laterais (ao lado da plataforma em que se apresentam os autores, antes do balcão rosa-sei-lá-o-quê, aliás, um detalhe arquitetônico totalmente dispensável). Espaços no chão, claro. Eles escorregavam e engatinhavam ocupando um limite de aproximadamente um metro e meio por dois. Como lagartixas, precisaram exercitar a gentileza e a cordialidade entre si para que todos tivessem sua chance de capturar alguma imagem nos vinte minutos permitidos. Acabado o tempo limite, supunha-se que deveriam escorregar novamente pela saída lateral da Tenda. Pela lógica da FLIP (e, juro: eu não sei quem é essa pessoa) um fotógrafo não pode ser ao mesmo tempo uma criatura que lê, que compra ingressos, que assiste ao evento. Ou você é fotógrafo ou você é público. Bem, ao público são destinadas as cadeiras (menos as das três primeiras fileiras, essas são reservadas aos que as merecem por motivos vários), mas ao público não é reservado o direito de sacar e engatilhar uma camerazinha digital para fazer fotinhos amadoras dos seus autores preferidos. Então, seguindo a lógica do “ou você é fotógrafo, ou você é público, ou você é merecedor”, sendo fotógrafo você faz o que pode fazer e se manda; sendo público, você compra seu ingresso e entra na fila e acomoda-se numa cadeira disponível: sem essa de pensar em fotos (que bobagem é essa de todo mundo agora ter uma câmera digital? até parece! se continuar assim até o auxiliar do pedro-pedreiro vai se sentir feliz por poder mostrar que esteve na Tenda dos Autores olhando de longe para o Ishmael Beah, onde já se viu?).

Ta bom. Eu estou errada. Devo estar. Estou fazendo alguma ironia ridícula sobre um assunto sério. Ou não? A Festa é para olhar e ouvir, não para fotografar. É óbvio.

Eu sei. Quando estive no show do Chico e em outros tantos, acho que ouvi alguém dizer no autofalante sobre não usar flash, ou não fotografar, ou não filmar, sei lá… mas nunca vi em lugar algum um cinturão de pessoas vestindo camisas vermelhas para impedir ou tentar impedir que aquelas criaturas (que eu considero inofensivas com suas compactas) saquem suas armas e atirem contra o palco. Foi o que vi na V FLIP. Posso estar errada. Não: tenho que estar errada! Preciso estar errada. Mas a imagem não era bonita.

Se eu fiquei espantada com o lugar dos fotógrafos, fiquei mais espantada ainda com o lugar do leitor numa Festa de Literatura. Fiquei pensando em Barthes e no seu polêmico “A morte do autor” naquele tempo em que se começava a refletir mais sobre a importância do texto literário, provocando um deslocamento importante no que se tinha por supremacia e verdade, até o surgimento das teorias de efeito e recepção que jogariam luz sobre a figura do leitor. Eu sei, foi a gripe e a febre que embaralharam meus pensamentos e eu fiquei delirando noites e dias sobre algo como “a morte do leitor”, um novo deslocamento que viria para confirmar que a literatura é feita de escritores e suas obras – o que nos desobrigaria de questões a respeito do porquê se lê tão pouco. Delírio meu. Impressão que tive durante a festa, imaginando que se a figura do leitor fosse mesmo importante, deveríamos pensar em proibir o autor de fotografar seu público. É, estou mesmo com febre.

Mia Couto sorriu para mim e me disse: bom dia. Guilhermo Arriaga mostrou-me um espelho ao sol. Não há morte do leitor enquanto houver literatura feita por gente de carne e sangue.

Eu obedeci (quase sempre) às regras da FLIP como leitora (guardei na bolsa o crachá cinza) e como pessoa comum que compra seus ingressos, paga por seu deslocamento, compra livros, paga hospedagem e alimentação, encontra amigos no bar, conhece pessoas na fila, toma café sentada na escada. O que eu não sei ainda é quem é a FLIP das regras; tampouco entendi suas razões. Mas ouvi dizer que alguém vai conversar com a FLIP e que na sexta edição estaremos todos vivos e felizes: jornalistas, escritores, fotógrafos, assessoria de imprensa, diretores, organizadores, povo de Paraty, e o leitor portador de uma “maquininha falcatrua” que não faria mal a um passarinho.

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