Aroma
Saturday, June 9th, 2007O cadáver jazia entre os sulcos. Ramón se aproximou devagarinho, com o coração disparando a cada passo. A mulher estava nua, caída de rosto para cima sobre uma poça de sangue. Assim que a viu, ele não pôde mais tirar os olhos de cima dela. Em seus dezesseis anos, várias vezes já sonhara contemplar uma mulher nua, mas nunca imaginara encontrá-la daquele jeito. Mais com assombro do que com luxúria, percorreu com o olhar a pele suave e inerte: era um corpo jovem. Com os braços estirados para trás e uma das pernas ligeiramente dobrada, ela parecia pedir um abraço final. A imagem o transtornou. Ele engoliu em seco e respirou fundo. Percebeu o doce aroma de um perfume floral barato. Teve vontade de dar a mão à mulher, levantá-la e mandá-la parar com aquela mentira de que estava morta. Ela continuou nua e quieta. Ramón tirou a camisa - sua camisa de domingo - e cobriu-a o melhor que pôde. Ao se aproximar, reconheceu-a: era Adela, e tinha sido apunhalada pelas costas.
Guilhermo Arriaga. Um doce aroma de morte, Trad. Joana Angélica d’Avila Melo, Rio de Janeiro: Griphus, 2007, p. 10.